“ Eu não
queria ser quinto ou quarto baterista. Por causa do suingue, um fox meio
ligeiro que tinha antigamente, eu deixei de tocar bateria.Eu queria ser
um baterista que todo mundo se admirasse. Eu toda vida gostei de ser assim.
Não gostava de ser o último lugar. Eu gostava de ser de segundo
pra primeiro, e tal. Então era um baterista que só
gostava de tocar a nossa música. Então abandonei e fui treinar
um pouquinho de pandeiro. E sempre cantando. Cantando samba, cantando marcha
de arrasta-pé, cantando coco, essa coisa toda”.
“Na época
eu brincava de artista, naquele tempo do cinema mudo. Então tinha
aquele pessoal do faroeste, e todo menino fazia suas quadrilhas, de índio,
de chefe de quadrilha, de bandido, e eu era então o Jack Perry.
Comprei um chapelão de palha, um revólver de madeira, e a
gente brincava… Depois fui crescendo, tinha que ajudar minha mãe
a dar de comer à moçada e tive que trabalhar. Parei com a
brincadeira mas fiquei com o nome Jack, só J-a-c-k. Comecei a tocar
pandeiro e os caras: "- Comequié, e aí, Jack, Jack do Pandeiro…
Fiquei sendo Jack do Pandeiro."
O conselho do
Prêmio Sharp de Música - formado por José Maurício
Machline, Gilberto Gil, Rita Lee, Julio Medaglia, Paulo Moura, Dorival
Caymmi e Zuza Homem de Mello - foi unânime em escolher o Jackson
do Pandeiro como o principal homenageado do prêmio em 1998.
No dia 13 de maio
de 1998 foi feita a entrega deste prêmio, um dos mais importantes
do país, a este artista que dedicou toda a sua vida à música
da sua terra, tendo influenciado com seu trabalho os grandes nomes da música
brasileira. Abaixo, os depoimentos dos artistas sobre Jackson.
Gilberto Gil
"A influência
de Jackson do Pandeiro na música brasileira é profunda, fundamental.
Ele é um dos grandes mestres da música nordestina, vista
como esse grande projeto que se instalou na música brasileira a
partir dos anos 50, primeiro com Luiz Gonzaga, que foi o primeiro grande
codificador, o homem que trouxe os elementos da música nordestina
para a música popular, para o disco, para o rádio, para os
palcos das praças do Brasil. Mas Luiz Gonzaga faz isso ainda com
a vertente ortodoxa, rural, com a paisagem do campo, típica, diferenciada
da cidade, os elementos, os valores, o conservadorismo, a moral.
Jackson do Pandeiro
já é… Campina Grande. Jackson já é o samba
no norte, já é Copacabana no Nordeste Brasileiro, já
é o chiclete com banana, como ele próprio cantava. E ele
já trazia no seu modo de cantar, na forma de dividir, na pronúncia,
na articulação da palavra, na gíria, na insinuação
do ritmo e da emissão vocal, ele já trazia esse sentimento
cosmopolita que Campina Grande tem, essa vontade, esse anseio de ser Nova
Iorque, essa característica de entreposto, de eixo, de carrefour,
de cruzamento do Nordeste. Campina Grande, cidade que recebia afluxos de
todas as regiões, a cidade da feira, a cidade do mercado, a cidade
do negócio, a cidade onde tudo se troca e tudo se vende, onde tudo
tem valor e nada tem valor, já símbolo da modernidade, essa
efervêscencia, essa volatilidade, essa capacidade de tudo ser e de
tudo não ser ao mesmo tempo, típico do cosmopolitismo que
Campina Grande tem, e que aparece na música de Jackson do Pandeiro
com a quela manemolência, aquela malandragem…
Eu diria que
Jackson é o grande malandro do nordeste da música popular.
Ele é o Moreira da Silva, o samba de breque da música nordestina…"
Entrevista ao
jornalista Rômulo Azevedo da TV Paraíba.
Os depoimentos
seguintes foram reproduzidos de matéria publicada pelo jornalista
Tom Cardoso no jornal O Estado de São Paulo, em 11 de agosto de
1997.
João Bosco:
"Sempre fui fascinado por ele. A gente
tinha um projeto de fazer vários shows juntos pelo País,
mas acabou não dando certo por causa da falta de grana. Tive a oportunidade
de dizer ao Jackson o quanto admirava o seu trabalho. Gravei uma música
em homenagem a ele - Batiumbalaio - Rockson do Pandeiro. Coloquei Rockson
porque achava que o som dele tinha muito de rock-and-roll. O samba de Jackson
já vinha com bebop. Acho que a música dele tem de ser mais
divulgada, principalmente para os músicos mais jovens. Fico imaginando
como ficaria maravilhoso esses grupos de rock pauleira gravando com influência
do coco de Jackson."
Alceu Valença:
"Quando criança,
ouvia muito Jackson do Pandeiro nos altos-falantes da feira de São
Bento. A música dele é a trilha sonora da minha infância,
tem cheiro de fumo de rolo. Talvez eu tenha sido o músico que mais
se aproximou de Jackson no fim de sua carreira. Viajei o Brasil inteiro
com ele em 1977, com o Projeto Pixinguinha. Depois dessa excursão,
fiquei deslumbrado e resolvi compor o meu primeiro forró: Coração
Bobo. É uma pena, hoje em dia, ele não ter sua obra reconhecida
como Luís Gonzaga. O Jackson era menos articulado, ingênuo...
Não soube fazer os contatos que o mestre Lua fez. Costumo sempre
dizer que o Gonzagão é o Pelé da música e o
Jackson, o Garrincha."
Zé Ramalho:
"Fui muito influenciado por Jackson.
Tinha uma grande voz, era uma espécie de João Gilberto do
forró. Fiz um show ao lado dele em 1976, no Teatro João Caetano,
no Rio, e fiquei impressionado com o ritmo e a energia dele em cima do
palco. O sobrinho dele, o José Gomes, que herdou o nome do tio,
toca pandeiro na minha banda há muito tempo."
Moraes Moreira:
"Ele encarnava toda aquela coisa da
música nordestina, o ritmo, a energia e o suingue. É claro
que fui influenciado pelo trabalho dele, aliás acho que todos os
músicos da minha geração também foram. Era
um grande cantor e um excelente tocador de pandeiro. Jackson interpretando
Chiclete com Banana é simplesmente maravilhoso. Outro dia cantei
Sebastiana numa festa de São João e foi um sucesso. Pretendo
gravar mais músicas de Jackson nos meus próximos discos."
Chico César:
"Ele está, para mim, no Olimpo
da música brasileira. Reinventou o samba e o coco. Eu, João
Bosco e Lenine somos herdeiros dele. O Jackson era um cara que tinha um
jeito superbrasileiro e autêntico de cantar."
Elba Ramalho
"Na minha opinião existem duas
escolas de canto no Brasil: a de João Gilberto e a de Jackson do
Pandeiro. Eu tive o privilégio de conviver com Jackson e ser amiga
dele. Foi o meu grande professor ao lado do Gonzagão. Os dois sempre
gostaram muito do meu trabalho. O Jackson tocou em quase todos os meus
primeiros discos."
Aldir Blanc
"Se algum músico pode ser chamado
de seminal no Brasil é Jackson do Pandeiro. Ele foi o ponto de partida
e uma referência para muitos músicos que estão hoje
aí. Os meus dois parceiros, Guinga e João Bosco, são
um exemplo disso. Eles foram influenciados diretamente pelo trabalho de
Jackson, que, além de ótimo músico, era um extraordinário
letrista. Aliás, estou escrevendo a letra para uma música
que o Guinga me mandou em homenagem a ele. Vai chamar-se Influência
de Jackson."
Guinga
"É impossível um compositor
que ame a música brasileira não ter o trabalho de Jackson
como referência. Eu tenho uma relação muito forte com
a música dele. Lembro-me de que quando era criança ia passar
férias numa pequena casa de pescador, numa cidade do litoral do
Rio. A casa não tinha luz elétrica e a diversão dos
adultos era jogar baralho e a dos garotos, ouvir músicas do Jackson,
que o meu pai punha para tocar numa vitrola de manivela. Depois, já
profissional, encontrei-me diversas vezes com ele em estúdio. Ficava
admirado olhando aquela figura humilde, simples, que não tinha muita
noção de sua genialidade..."
Tom Zé
"O meu último disco foi dedicado
ao Jackson do Pandeiro. No Nordeste, os três principais alimentos
são a farinha, a carne-seca e o ritmo, que é um verdadeiro
deus e Jackson o nosso sacerdote. Temos hoje essa malandragem rítmica
porque ouvimos muito Jackson quando éramos crianças. Outro
dia fiz uma música para um artista de São Paulo e ele não
conseguia cantar direito. Não sabia dividir o canto como a gente.
Faltou a ele a escola de Jackson do Pandeiro."
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